A CORAGEM DA INOVAÇÃO
Era setembro de 1984. Em São Paulo, um grupo de jovens senhores liderados pelo então engenheiro Claudio Berenguel Ribeiro, aventurava-se num dos mais ousados projetos do mundo editorial, da arquitetura residencial e da inovação social.
Quase todos eles tinham se conhecido alguns anos antes na Universidade Presbiteriana Mackenzie, quando frequentavam aulas entre os cursos de engenharia e de arquitetura. Tinham em comum o plano ousado de acompanhar a concepção imaginativa de quem os liderava. Claudio Ribeiro concebera a publicação bastante fora dos padrões locais, marcadas principalmente pelo diletantismo das imagens que conduziam o leitor apenas a imaginar como seria uma casa ideal.
Foi assim que tudo começou. O país começava a mudar. Era o fim do regime militar e de tudo que tinha aportado no Brasil daqueles últimos vinte anos. O BNH era um desses itens. A publicação era uma projeção dessa vontade de mudar tudo o que poderia ser simplesmente mudado. Até sem muito esforço.
O primeiro número era dedicado, imagine, à democratização da casa própria. Não do "barraco personalizado", da "favela urbanizada", mas da casa própria que qualquer um poderia construir. Enquanto as edições circunstantes mostravam imagens daquilo que poderia ser, a Revista Minha Casa disponibilizava projetos acabados. Projetos a que qualquer pessoa podia ter acesso.
Temas como energia renovável, energia solar, tratamento de lixo residencial, ecossistema doméstico, espaços de sociabilidade, ética familiar - eram recorrentes desde suas primeiras páginas. Tudo isso em 1984. O que viria a seguir em nada supreenderia. A cobiça de mercado, as reservas ideológicas de alguns incautos que odeiam saber que estão errados e, principalmente, a afoiteza de alguns colaboradores transformaram em poeira o que poderia ter se convertido em algo útil e duradouro para muitos.
Compreender o talento de quem é capaz de inovar requer muito mais que simplesmente ter espírito empreendedor e devoção ao trabalho. Requer sabedoria. A falta de talento, como a falta de sabedoria são indícios de um atrazo mental insuperável. O mesmo atrazo que conduziu ladeira abaixo a revista quando ela mudou de mãos.
Como se sabe, o talento é o contrário da mediocridade. Medíocre é quem nunca pensou nada novo, nunca concebeu nenhuma inovação e nunca criou nada para usufruto além de si mesmo. Cada ser medíocre é como um ser mitológico ao contrário que só faz assombrar justamente quem nada espera dele. É movido pela convição de que todo mundo é medíocre, menos ele.
Por esta razão, festejar o jubileu de prata de uma publicação tão especial é motivo de alegria. Qualquer que tenha sido o destino dela, ela nasceu, foi real, despertou interesse e por um largo período de tempo contribuiu para a emancipação das idéias. Além disso, sua concepção, como as idéias que nortearam seu idealizador jamais feneceram. Como também nunca desapareceu o entusiasmo que nutriam por ela alguns poucos colaboradores.
Sinto-me profundamente feliz por ter participado do projeto inicial da Revista Minha Casa, por ter colaborado com ela e por ter vivido alguns anos dedicado à construção de projetos inesquecíveis. Sempre ombreando com a genialidade e o talento do fundador, Claudio Berenguel Ribeiro.
São Paulo, setembro de 2009
Victor Aquino